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Bituruna,27/03/2026

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Mosquitos que transmitem malária na América do Sul estão ficando resistentes a inseticidas, aponta estudo

Pesquisa com mais de mil insetos em seis países, incluindo o Brasil, revela adaptação ligada ao uso de agroquímicos. Especialistas alertam que controle da doença pode ficar mais caro e complexo.

Fonte: Portal G1
Mosquitos que transmitem malária na América do Sul estão ficando resistentes a inseticidas, aponta estudo Foto: Romuald Carinci e Pascal Gaborit/Institut Pasteur de la Guyane

Mosquitos da espécie Anopheles darlingi, principal vetor da malária na América do Sul, estão desenvolvendo resistência genética a inseticidas em múltiplos países do continente. É o que aponta um estudo inédito publicado na revista “Science” nesta quinta-feira (26), com participação de pesquisadores brasileiros.

A pesquisa sequenciou o genoma completo de 1.094 fêmeas adultas coletadas em 16 localidades da Guiana Francesa, Brasil, Guiana, Peru, Venezuela e Colômbia – em ambientes como florestas, áreas úmidas, campos, zonas agrícolas, áreas de mineração e cidades. O resultado mais surpreendente foi a resistência a inseticidas, fenômeno que até então havia sido observado de forma esparsa nessa espécie.

O motor da resistência

A hipótese mais plausível dos cientistas é que a pressão sobre os mosquitos não vem apenas dos inseticidas usados no combate direto à malária (mosquiteiros tratados, borrifação em paredes), mas principalmente dos produtos químicos aplicados na agropecuária. As larvas do Anopheles darlingi se desenvolvem na água, e em regiões agrícolas essa água pode estar contaminada por inseticidas que escorrem dos campos cultivados ou se acumulam em valas de irrigação.

Os mosquitos que sobrevivem a esse ambiente carregam genes de resistência e os transmitem às gerações seguintes – um processo análogo à resistência bacteriana a antibióticos. “Observamos sinais evolutivos mais fortes em locais onde a agricultura é prevalente”, afirmou Jacob Tennessen, cientista de Harvard e um dos autores.

Corrida contra o tempo

A América do Sul registra mais de 600 mil casos de malária por ano; o Brasil responde por cerca de 162 mil. Os dois principais métodos de controle hoje dependem diretamente da eficácia dos inseticidas: mosquiteiros impregnados e borrifação residual intradomiciliar. Se os mosquitos se tornarem geneticamente tolerantes, as ferramentas mais acessíveis perdem o efeito.

O estudo alerta que o que aconteceu na África – onde os piretróides, eficazes nos anos 1990, hoje são quase inúteis na dose original – pode se repetir na América do Sul. “Não basta monitorar a eficácia do inseticida usado pelo programa de malária; é preciso olhar o ambiente onde o vetor vive”, afirmou a professora da USP Maria Anice Mureb Sallum, coautora do trabalho.

Diversidade genética e implicações

Outro dado relevante: os Anopheles darlingi de diferentes partes do continente são geneticamente muito distintos entre si, indicando pouca troca genética entre populações de países diferentes. Isso significa que uma resistência que surge no Peru não se espalha automaticamente para a Guiana – o que dá algum tempo para cada país agir –, mas também exige que estratégias de controle genético (como os “gene drives”) sejam coordenadas e aplicadas simultaneamente em vários países.

Próximos passos

Os pesquisadores defendem que o próximo passo é medir concretamente o grau de resistência dos mosquitos identificados: a quais inseticidas respondem menos e em que proporção. “Assim será possível monitorar a disseminação da resistência e potencialmente sugerir como o uso de inseticidas nesses países deve ser alterado”, concluiu Tennessen.

A malária é uma doença infecciosa grave, transmitida exclusivamente pela picada da fêmea do mosquito Anopheles. No Brasil, a transmissão concentra-se na região Amazônica, mas casos importados aparecem em outros estados, incluindo o Sul. O diagnóstico precoce e o controle vetorial são pilares para a eliminação da doença, uma meta oficial do país.




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