Câncer de pâncreas é descoberto tarde em quase todos os casos; veja os sinais que passam despercebidos
Não existe exame de rastreamento recomendado para a população em geral, e os primeiros sintomas se confundem com gastrite, cansaço e má digestão
Foto: Reprodução/Redes sociais O câncer de pâncreas é um dos tumores mais desafiadores da oncologia. O Inca projeta mais de 13 mil novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, pouco mais de 1% de todos os diagnósticos oncológicos, mas 5% das mortes por câncer. A razão central é uma só: quase sempre a doença é descoberta em estágio avançado.
O pâncreas fica escondido entre a coluna e o estômago, cercado pelos principais vasos do abdome. "Essa vizinhança, que deveria funcionar como proteção, atua contra o paciente: o tumor alcança as veias e as artérias em pouco tempo e se dissemina antes de dar qualquer sinal", explica Marcos Belotto, cirurgião do Centro Oncológico do Hospital Nove de Julho. O resultado é que menos de 30% dos pacientes chegam ao diagnóstico em condições de serem operados, e a cirurgia ainda é o único tratamento com potencial de cura.
Antes do sinal mais evidente, que é a icterícia (pele e olhos amarelados), quase sempre há meses de sintomas que não apontam para lugar nenhum. Cerca de 80% dos pacientes têm dor ou desconforto abdominal em algum momento; 85% perdem peso; entre 50% e 60% relatam falta de apetite e cansaço. "O problema não está na intensidade desses sintomas, e sim na inespecificidade deles", afirma Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas. "Dor abdominal, cansaço e perda de apetite cabem em dezenas de diagnósticos mais prováveis, e é para esses que médico e paciente olham primeiro."
A aposentada Elizabeth Paes Gomes, de 74 anos, viveu esse roteiro. Por meses, atribuiu as dores abdominais a exageros na alimentação. Quando a pele amarelou, procurou um pronto-socorro. A tomografia encontrou um tumor no pâncreas, e ela foi operada em três dias. "Você está plena de vida e, de repente, parece que recebeu uma sentença de morte", relembra.
Por que não existe rastreamento?
Se encontrar o tumor cedo aumenta tanto as chances de sobrevida, por que não há um exame de rotina para o pâncreas? Stefani explica que um bom teste de rastreamento precisa ser simples de aplicar em larga escala, não pode acusar alterações irrelevantes e precisa mudar o destino de quem ele encontra. "Nenhum exame de pâncreas chegou perto disso. Não há, em nenhum país, recomendação de rastrear a doença."
O rastreamento, no entanto, é indicado para grupos de alto risco: pessoas com dois ou mais parentes de primeiro grau com a doença, portadores de síndromes genéticas raras e pacientes com pancreatite crônica. Para eles, a recomendação é acompanhamento anual por imagem.
Avanço no tratamento
Se o diagnóstico precoce ainda é um desafio, o tratamento deu um salto. Em 2026, o congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) apresentou os resultados do daraxonrasib, primeiro inibidor de RAS a chegar a um estudo de fase 3 no pâncreas. A sobrevida global mediana passou de 6,7 meses com quimioterapia para 13,2 meses com o medicamento oral, com redução de 60% no risco de morte. Cerca de 90% dos tumores de pâncreas são movidos por mutações no gene RAS.
O medicamento ainda não tem registro na Anvisa, mas a agência americana FDA já autorizou um programa de acesso expandido para pacientes nos Estados Unidos, e a aprovação definitiva pode sair ainda em 2026. "Depois de décadas sem nenhuma novidade relevante, o câncer de pâncreas voltou a ter perspectiva. O que se persegue agora é transformá-lo numa doença crônica", diz Belotto.



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