El Niño deve pressionar energia, transportes e varejo além dos alimentos, aponta relatório
Análise da XP Investimentos indica que fenômeno climático pode impactar geração de energia, navegação de rios, inflação e até vendas de roupas; governo já prepara ativação de termelétricas
Foto: lixu/iStock Um relatório divulgado pela XP Investimentos nesta terça-feira (28) projeta que os efeitos do El Niño no Brasil vão muito além do esperado aumento nos preços dos alimentos. O fenômeno climático deve pressionar também a geração de energia, o transporte de cargas, o varejo e até as carteiras de crédito dos bancos.
O governo federal já identificou riscos de quebra das safras de arroz e milho e se prepara para ativar usinas termelétricas. O custo estimado dessa medida é de cerca de R$ 1,3 bilhão.
Alimentos
Os economistas ponderam que as implicações para a inflação de alimentos são importantes, mas não devem ser superestimadas. Para 2026, o fenômeno pode implicar um acréscimo de 0,35 ponto percentual de alta no IPCA, sendo 2,3 pontos percentuais em alimentação no domicílio. Para 2027, há incertezas devido ao risco nos preços de hortifrutis, incorporando 0,15 ponto percentual de efeito, o que resulta em 1,0 ponto percentual em alimentação no domicílio.
Os analistas esperam que a inflação de alimentos in natura possa atingir um pico de cerca de 20% no segundo trimestre de 2027, antes de cair para cerca de 5% até o fim de 2028. A reversão de preços após o pico do El Niño, no entanto, raramente ocorre de forma clara, já que a inflação de alimentação continuou subindo na maioria dos casos anteriores.
Do lado da atividade econômica, a expectativa de alta intensidade do fenômeno deve derrubar a produtividade das principais safras do Brasil. Segundo os cálculos da XP, a produtividade média das culturas agrícolas pode declinar cerca de 3% em comparação a um cenário sem anomalia climática.
O impacto, porém, dependerá das condições macroeconômicas, como a taxa de câmbio e os preços de diesel e fertilizantes, fatores que em episódios passados superaram o efeito climático.
A XP também listou os alimentos mais sensíveis ao fenômeno. No topo da lista estão tubérculos, raízes e legumes, seguidos por hortaliças e verduras, frutas, cereais e oleaginosas, pescados, açúcares e derivados, óleos e gorduras, aves e ovos, carnes e, por último, sal e condimentos.
Energia
O setor de energia costuma ser um dos pontos mais afetados pelo El Niño. O impacto inclui geração, demanda, níveis dos reservatórios das hidrelétricas e preços. Os autores do relatório relembram que em 2015-16 o fenômeno afetou a recuperação dos reservatórios e levou à queda dos preços de curto prazo. Uma situação semelhante é esperada para 2026.
As temperaturas mais altas durante o El Niño resultam em maior consumo, já que o uso de ar-condicionado aumenta. Como a demanda de energia foi baixa em junho, com temperaturas abaixo da média, os analistas sugerem que há risco de alta para os preços no terceiro e quarto trimestres de 2026.
No segundo semestre, o fenômeno pode alterar a dinâmica das chuvas. O El Niño tende a provocar precipitações durante a estação seca, o que beneficia a geração no submercado Sudeste/Centro-Oeste de energia. Os especialistas lembram que, historicamente, a quantidade de energia armazenada, e não a intensidade do fenômeno, é o que determina os preços. Com armazenamentos acima da média, as condições atuais indicam que os preços deverão sofrer pressão no terceiro e quarto trimestres de 2026.
Varejo e transportes
Para o varejo, o impacto esperado é médio, como um reflexo dos efeitos da inflação de alimentos, que reduz o consumo de outros itens. Safras menores devem reduzir a oferta, enquanto insumos mais caros devem pressionar ainda mais as commodities agrícolas. O repasse mais rápido aparece em produtos frescos e itens mais expostos a fertilizantes e petróleo, como carne, laticínios, panificados e óleos comestíveis.
Os analistas ponderam que o El Niño pode favorecer os varejistas de vestuário, já que um inverno mais curto impede uma transição mais brusca nos preços das coleções de primavera/verão.
O clima mais seco na região Norte também ameaça a navegabilidade dos rios, afetando diretamente empresas de transporte e a logística de escoamento das safras de soja e milho.
Setor financeiro
Carteiras com investimentos no campo concentradas em pecuária, milho e soja estão expostas a ciclos de commodities, variações de câmbio e choques climáticos. Essa exposição aumenta a vulnerabilidade a eventos como o El Niño.
A depender do nível de exposição do banco, o fenômeno pode adicionar riscos significativos, afetando a volatilidade da produção agrícola e pressionando o fluxo de caixa dos produtores, que já enfrentam margens baixas.



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