Gasolina, indústria e agro: como a guerra no Irã pode pesar no bolso do brasileiro
Alta do petróleo e valorização do dólar após a escalada do conflito e o fechamento parcial do Estreito podem pressionar preços de combustíveis, fretes, fertilizantes e energia — com impacto possível sobre a inflação e a política de juros.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil A escalada da guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz já provocaram alta do dólar, que passou de R$ 5,15, e disparada no preço do petróleo, com o barril do Brent subindo mais de 7,5% e se aproximando de US$ 80. O movimento pode impactar combustíveis, energia e outros setores da economia brasileira.
Segundo especialistas ouvidos pelo G1, a pressão sobre a inflação pode começar a aparecer em cerca de um mês, dependendo da intensidade do conflito e da duração do fechamento do Estreito de Ormuz. Com dólar e petróleo mais caros, cresce a expectativa de aumento nos preços de combustíveis e energia, que têm efeitos indiretos sobre transporte, indústria e agronegócio.
Desde os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o salto no preço do petróleo foi o efeito econômico mais marcante. Em relação ao fim de 2025, quando a commodity fechou cotada a US$ 60, a alta acumulada é de 27,5%.
O petróleo é matéria-prima de combustíveis como gasolina, diesel, querosene de aviação e gás de cozinha, além de insumos como plásticos, borracha, fertilizantes e medicamentos. Isso pode gerar efeito em cadeia, elevando custos de produção e logística.
Uma alta no diesel, por exemplo, tende a encarecer o frete rodoviário, refletindo nos preços de produtos transportados por estradas. A gasolina é um dos itens mais relevantes para a inflação, representando cerca de 5% do IPCA, segundo os especialistas.
No agronegócio, o impacto pode ocorrer tanto pelo aumento do custo das máquinas agrícolas quanto pelo encarecimento dos fertilizantes químicos, que fazem parte relevante das importações brasileiras vindas do Irã. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que adubos e fertilizantes químicos representaram 93,5% do total importado pelo Brasil do país do Oriente Médio em janeiro deste ano.
Também há possível impacto na produção de energia elétrica, especialmente nas termelétricas, que utilizam combustíveis e costumam ser acionadas em períodos de seca, quando os reservatórios das hidrelétricas ficam mais baixos.
Pressão no dólar e nos juros
Em momentos de tensão geopolítica, o dólar costuma se valorizar por ser considerado um ativo mais seguro. Com a moeda americana mais forte, insumos importados ficam mais caros, o que pode ampliar a pressão inflacionária.
Caso os preços do petróleo e do dólar permaneçam elevados, o Banco Central do Brasil pode desistir de reduzir os juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, mantendo a Selic no maior patamar em 20 anos. Especialistas afirmam, no entanto, que ainda é cedo para prever os desdobramentos, e que as decisões dependerão da evolução do conflito e da intensidade do impacto sobre a inflação.
O Brasil é exportador de petróleo, o que pode favorecer a balança comercial em um cenário de preços internacionais mais altos. Ainda assim, o aumento da commodity tende a pressionar os combustíveis e demais cadeias produtivas no mercado interno, com reflexos diretos no custo de vida.



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