Tornado no Paraná: entenda como se forma o fenômeno que causou destruição em Rio Bonito do Iguaçu
Simepar confirma tornado EF3 com ventos de 250 km/h, um dos mais intensos da história do Brasil; especialistas explicam causas, características e consequências do fenômeno que deixou rastro de destruição.
Na tarde de sexta-feira, 7 de novembro de 2025, um dos mais violentos tornados já registrados no Brasil atingiu Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná. Classificado como EF3 na Escala Fujita Melhorada, com ventos de 250 km/h, o fenômeno meteorológico causou destruição generalizada, resultando em cinco mortes confirmadas e mais de 432 feridos, em um dos eventos climáticos mais significativos da história recente do país.
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A GÊNESE DO TORNADO: Como Tudo Começou
O tornado que assolou Rio Bonito do Iguaçu originou-se de uma supercélula - uma tempestade de proporções excepcionais caracterizada por uma corrente de ar ascendente giratória chamada mesociclone. Segundo o meteorologista Samuel Braun do Simepar, "o ambiente atmosférico estava excepcionalmente propício, com umidade elevada, aquecimento significativo e, principalmente, um cisalhamento do vento extremamente acentuado".
O Processo de Formação Passo a Passo:
- Encontro de Massas de Ar: Uma massa de ar frio e seco proveniente de sistemas frontais sobrepôs-se a uma massa de ar quente e úmida estacionária sobre a região
- Instabilidade Atmosférica: O contraste térmico criou uma instabilidade significativa, com o ar quente tentando ascender através do ar frio
- Rotação Horizontal: O cisalhamento do vento (variação da velocidade e direção do vento com a altitude) iniciou uma rotação horizontal do ar
- Transição Vertical: A corrente ascendente inclinou essa rotação para a vertical, formando o mesociclone
- Intensificação: A rotação se intensificou, criando uma área de baixa pressão que começou a sugar mais ar para o sistema
- Formação do Funil: O ar ascendente resfriou, condensando a umidade e formando o funil característico
- Toque no Solo: O funil estendeu-se até o solo, oficializando a formação do tornado
CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS DO FENÔMENO
Classificação e Intensidade:
- Categoria EF3 na Escala Fujita Melhorada
- Velocidade dos ventos: 250 km/h
- Diâmetro do funil: Estimado em aproximadamente 500 metros
- Duração: Aproximadamente 20 minutos em contato com o solo
- Trajeto: Percorreu cerca de 15 km através do município
Escala Fujita Melhorada - Compreendendo a Intensidade:
| Categoria | Velocidade (km/h) | Danos Característicos |
| EF0 | 105-137 | Danos leves: galhos quebrados, árvores pequenas tombadas |
| EF1 | 138-177 | Danos moderados: telhas arrancadas, janelas quebradas |
| EF2 | 178-217 | Danos consideráveis: telhados arrancados, árvores grandes tombadas |
| EF3 | 218-266 | Danos graves: paredes destruídas, trens tombados, destruição significativa |
| EF4 | 267-322 | Danos devastadores: casas destruídas, carros lançados ao ar |
| EF5 | >322 | Danos incríveis: edifícios arrasados, estruturas de concreto danificadas |
CONTEXTO METEOROLÓGICO EXCEPCIONAL
O meteorologista Samuel Braun, com 23 anos de experiência, destacou a singularidade do evento: "Em minha trajetória profissional, este foi o evento mais intenso que já presenciei. Não me recordo de termos alcançado a categoria EF3 anteriormente no Brasil".
Fatores que Contribuíram para a Formação:
- Cisalhamento do Vento Extremo: Diferença significativa na velocidade e direção do vento entre a superfície e altitudes mais elevadas
- Umidade Abundante: Alta concentração de umidade proveniente da evapotranspiração regional e sistemas de umidade
- Instabilidade Térmica: Contrastes acentuados de temperatura entre as diferentes camadas atmosféricas
- Frente Meteorológica: Sistema frontal atuando como gatilho para o desenvolvimento da supercélula
IMPACTOS E CONSEQUÊNCIAS EM RIO BONITO DO IGUAÇU
Danos Característicos de um EF3:
- Destruição completa de residências de alvenaria
- Estruturas comerciais com danos estruturais severos
- Veículos de grande porte tombados ou deslocados
- Postes de energia e infraestrutura pública devastadas
- Árvores de grande porte arrancadas pela raiz
Resposta de Emergência:
- 30 bombeiros mobilizados de várias cidades
- 20 especialistas do Grupo de Operações de Socorro Tático (GOST)
- Cães de busca para localização de vítimas
- Base de comando estabelecida em Guarapuava
- Ambulâncias de Cascavel e Guarapuava no apoio
CONTEXTO HISTÓRICO DOS TORNADOS NO BRASIL
Embora menos frequentes que em outras regiões do mundo, o Brasil registra ocorrências significativas de tornados:
Principais Eventos Registrados:
- 2005: Tornado em Indaial (SC) - categoria F3
- 2015: Tornado em Xanxerê (SC) - significativos danos materiais
- 2019: Eventos no interior de São Paulo
- 2024: Tornados no Rio Grande do Sul
O evento em Rio Bonito do Iguaçu posiciona-se entre os mais intensos já documentados no território nacional.
DIFERENÇAS ENTRE TORNADO, FURACÃO E CICLONE
Tornado:
- Formação sobre continente
- Duração: minutos a poucas horas
- Diâmetro: até 2 km
- Origem: Supercélulas de tempestade
Furacão/Ciclone Tropical:
- Formação sobre oceanos tropicais
- Duração: dias a semanas
- Diâmetro: 200-400 km
- Origem: Sistemas de baixa pressão sobre oceanos
Ciclone Extratropical:
- Formação em latitudes médias
- Associado a sistemas frontais
- Menor intensidade que furacões
- Comuns no Sul do Brasil
MEDIDAS DE PROTEÇÃO E PREVENÇÃO
Recomendações da Defesa Civil:
Antes do Tornado:
- Identifique um abrigo seguro em sua residência
- Monitore alertas meteorológicos
- Tenha um kit de emergência preparado
Durante o Tornado:
- Busque abrigo em porões ou cômodos internos no andar térreo
- Afaste-se de janelas e portas de vidro
- Proteja a cabeça e o pescoço
Após o Tornado:
- Verifique se há feridos
- Cuidado com fios elétricos caídos
- Não entre em edificações danificadas
PERSPECTIVAS FUTURAS E PESQUISAS
O Simepar e outras instituições de pesquisa intensificam os estudos sobre tornados no Brasil, buscando:
- Melhorar sistemas de alerta precoce
- Compreender as mudanças nos padrões climáticos
- Desenvolver mapas de risco para regiões vulneráveis
- Capacitar comunidades para resposta a emergências



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