Guardar certas frutas juntas pode estragá-las mais rápido: guia completo para evitar desperdício
Entenda a ciência por trás do amadurecimento: frutas climatéricas liberam gás etileno e aceleram a deterioração das vizinhas. Especialista da Embrapa explica como organizar fruteira, geladeira e até como escolher na feira.
Foto: lifeforstock/Freepik Um erro comum no armazenamento doméstico está fazendo brasileiros jogarem fora toneladas de frutas perfeitamente comestíveis a cada ano. A prática de guardar todas as frutas juntas, seja na fruteira ou na geladeira, ignora uma característica biológica fundamental que determina sua conservação: a produção do gás etileno.
A forma como você organiza suas frutas em casa pode estar acelerando seu apodrecimento em dias. A chave está em entender a diferença entre frutas climatéricas e não climatéricas - algumas produzem um gás "amadurecedor" que afeta todas as outras ao redor, exigindo estratégias específicas de armazenamento para evitar perdas financeiras e desperdício alimentar.
De acordo com Marcos Fonseca, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos, o etileno atua como um hormônio vegetal natural. "Frutas climatéricas continuam o processo de amadurecimento após a colheita, e o etileno é o principal responsável por essa transformação", explica. Quando concentrado em espaços fechados, esse gás cria um efeito dominó de amadurecimento acelerado.
A ciência do amadurecimento
As frutas climatéricas - que incluem banana, mamão, maçã, pera, abacate, manga, pêssego, figo, kiwi, maracujá e caqui - são as maiores produtoras de etileno. Elas possuem a capacidade de amadurecer longe da planta-mãe, e sua produção do gás atinge um pico exatamente no ponto de maturação ideal.
Já as frutas não climatéricas - como morango, uva, cereja, amora, framboesa, laranja, limão, tangerina, abacaxi e melancia - não apresentam aumento significativo na produção de etileno após a colheita. "Elas praticamente não amadurecem depois de colhidas, apenas envelhecem e deterioram", esclarece Fonseca.
Combinações críticas (O que nunca guardar junto)
Algumas combinações são particularmente problemáticas:
- Banana + qualquer outra fruta madura: A banana é uma das maiores produtoras de etileno, especialmente quando apresenta pintas marrons.
- Maçã + frutas sensíveis: Maçãs liberam etileno continuamente, mesmo na geladeira.
- Mamão + frutas de casca fina: O mamão maduro pode "cozinhar" morangos e framboesas em poucas horas.
Estratégias inteligentes de armazenamento
Na geladeira:
- Regra de ouro: Só refrigere frutas já maduras. O frio retarda, mas não para completamente a ação do etileno.
- Embalagem individual: Use potes herméticos ou sacos plásticos perfurados (com pequenos furos) para cada tipo de fruta. Evite a gaveta "mista" onde tudo se amontoa.
- Posição estratégica: A parte central da geladeira (prateleira do meio) mantém temperatura mais constante (4-7°C), ideal para a maioria das frutas.
Casos especiais:
- Banana: Pode ir à geladeira já madura. A casca escurecerá, mas a polpa se conservará por 3-5 dias adicionais.
- Mamão/manga: Corte em pedaços e armazene em pote fechado.
- Abacaxi: Apenas se já descascado e cortado.
Na fruteira (temperatura ambiente):
- Ventilação é crucial: Escolha local arejado para dissipar o etileno. Evite fruteiras totalmente fechadas ou cantinhos abafados.
- Distância física: Separe frutas climatéricas das não climatéricas por pelo menos 30 cm.
- Controle de maturação: Se uma fruta climatérica está muito madura, consuma-a imediatamente ou transfira para a geladeira isolada das outras.
- Fuja do calor: Mantenha longe de fogão, janelas com sol direto ou eletrodomésticos que emanem calor.
Da feira para casa: cuidados essenciais
1. Frequência de compra: Ideal é adquirir frutas 1-2 vezes por semana, calculando o consumo real da casa.
2. Escolha consciente: Misture frutas em diferentes estágios - algumas maduras para consumo imediato, outras verdes para a semana.
3. Transporte delicado: Use embalagens rígidas para frutas sensíveis (pêssego, figo, morango). Não sobrecarregue sacolas.
4. Desembale imediatamente: Ao chegar em casa, retire todas as frutas de sacos plásticos, que retêm umidade e concentram etileno.
5. Inspeção inicial: Separe frutas com machucados, cortes ou sinais de fungos - uma única unidade estragada contamina as vizinhas rapidamente.
Higienização que preserva
A limpeza inadequada pode antecipar a deterioração:
1. Lave somente antes do consumo (não antes de armazenar), exceto frutas com muita terra.
2. Solução desinfetante: 1 colher de sopa de hipoclorito de sódio ou água sanitária sem alvejante para 1 litro de água. Deixe as frutas imersas por 10 minutos.
3. Enxágue completo: Em água corrente, removendo todo resíduo do produto.
4. Secagem perfeita: Use papel toalha ou centrífuga para saladas. Frutas úmidas desenvolvem fungos em horas.
5. Frutas com casca fina (morango, framboesa): Higienize apenas se for consumir em até 2 horas.
Segundo a Embrapa, cerca de 30% das frutas e hortaliças produzidas no Brasil são perdidas entre a pós-colheita e o consumo final. Armazenamento doméstico inadequado representa uma parcela significativa desse desperdício, impactando tanto o orçamento familiar quanto a segurança alimentar.



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