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Bituruna,25/02/2026

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De festa religiosa a celebração global: a evolução do Natal ao longo dos séculos

Data cristã, fixada no século 4, incorporou tradições pagãs, ganhou árvores, Papai Noel e até hábitos inusitados como comer frango frito no Japão.

Fonte: g1
De festa religiosa a celebração global: a evolução do Natal ao longo dos séculos Foto: Maxim Shemetov/Reuters

A celebração do Natal, consolidada no dia 25 de dezembro no calendário cristão, é um fenômeno complexo cujas raízes mergulham em decisões eclesiásticas do século IV, assimilam tradições de culturas anteriores e, ao longo de mais de milênio e meio, se transformaram em uma teia de práticas familiares, comerciais e culturais reconhecidas globalmente.

1. A Fixação da Data: Do Nascimento Desconhecido ao 25 de Dezembro

Os primeiros seguidores de Jesus não celebravam seu aniversário natalício. Os registros dos Evangelhos de Mateus e Lucas, únicos a mencionar o nascimento, não especificam data. Foi apenas no século IV, sob o Império Romano já cristianizado, que a Igreja estabeleceu oficialmente a celebração em 25 de dezembro. Estudiosos como Christine Shepardson, professora da Universidade do Tennessee, apontam que esta escolha estratégica pode ter visado sobrepor e cristianizar festivais pagãos populares do solstício de inverno no hemisfério norte, como a romana Dies Natalis Solis Invicti (Nascimento do Sol Inconquistável), celebrada justamente nessa data. O século IV foi um período fundacional, onde práticas cristãs foram institucionalizadas. Parte das igrejas ortodoxas orientais, seguindo o calendário juliano, celebra o Natal em 7 de janeiro.

2. A Metamorfose Medieval: De Festa Ruidosa a Alvo de Críticas

Durante a Idade Média, longe da solenidade doméstica atual, o Natal era frequentemente uma celebração comunitária e barulhenta, marcada por banquetes públicos, bebidas e alguma desordem nas ruas. Essa característica levou grupos como os puritanos ingleses e americanos, séculos depois, a verem a data com desconfiança e até a proibirem sua comemoração em certos períodos, por considerá-la imprópria e sem base sólida nas Escrituras.

3. O Renascimento Vitoriano: A Invenção do Natal Familiar

A imagem do Natal como uma festa centrada no núcleo familiar, na troca de presentes, na harmonia e na figura das crianças começou a tomar forma no século XIX, especialmente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Dois vetores foram cruciais:

Influência Germânica: A tradição da árvore de Natal decorada (Tannenbaum), comum nas regiões de língua alemã desde o século XVI, foi popularizada na Inglaterra pelo Príncipe Albert, marido da Rainha Victoria.

Literatura e Cultura: O livro A Christmas Carol (Um Conto de Natal), de Charles Dickens, publicado em 1843, popularizou mundialmente valores como caridade, reconciliação familiar e o "espírito natalino". Nos EUA, escritores como Washington Irving ajudaram a moldar uma nostalgia por tradições natalinas "antigas" e pacíficas.

4. São Nicolau e a Fabricação do Papai Noel

A figura jovial de barba branca e roupa vermelha tem sua gênese em uma pessoa real: São Nicolau, bispo de Mira (na atual Turquia) no século IV, famoso por sua generosidade e por milagres envolvendo crianças e pessoas em perigo. Sua festa, em 6 de dezembro, era marcada por dar presentes. A devoção a ele persistiu, especialmente nos Países Baixos, onde era chamado de Sinterklaas. Colonos holandeses levaram a tradição para Nova Amsterdã (futura Nova York). Ao longo do século XIX, nos EUA, Sinterklaas se fundiu com outras figuras folclóricas e foi gradualmente transformado pelo marketing e pela literatura (como o poema A Visit from St. Nicholas) no Papai Noel (Santa Claus) secular, que viaja de trenó puxado por renas e entra pelas chaminés. A imagem definitiva foi consolidada por campanhas publicitárias da Coca-Cola na década de 1930.

5. Os Outros "Noéis" do Mundo

A entrega de presentes natalinos não é monopólio do Papai Noel. Diferentes culturas têm seus próprios emissários:

Itália: Em partes do país, a Befana, uma bruxa benigna, distribui presentes na noite da Epifania (5 para 6 de janeiro).

Grécia/Chipre: São Basílio visita as crianças na véspera do Ano Novo.

Islândia: As crianças aguardam a visita dos 13 Yule Lads (Jólasveinar), trolls travessos que descem das montanhas nas 13 noites que antecedem o Natal.

Espanha e partes da América Latina: Os Reis Magos são os grandes presenteiros, na noite de 5 de janeiro.

6. Símbolos: Do Paganismo à Decoração

Muitos elementos decorativos natalinos têm origens pré-cristãs:

Árvores Perenes: Simbolizavam vida eterna em cultos pagãos do inverno. A prática de decorá-las em casa floresceu na Alemanha protestante.

Visco e Azevinho: Plantas associadas à fertilidade e proteção em tradições druídicas (celtas) e nórdicas, foram assimiladas pela celebração cristã.

7. A Globalização e suas Curiosidades: O Caso do KFC no Japão

O Natal no Japão, onde cristãos são minoria, é vivido mais como uma festa cultural e romântica. Uma das tradições mais sólidas é a ceia com frango frito do Kentucky Fried Chicken (KFC), criada por uma campanha de marketing em 1974. A história conta que um cliente estrangeiro, sem encontrar peru no Japão, disse que comeria "Kentucky" no Natal. A empresa transformou isso na campanha Kurisumasu ni wa Kentakkii! ("No Natal, é Kentucky!"), um sucesso absoluto que perdura há décadas, exigindo encomendas com semanas de antecedência.

8. O Natal como Fenômeno Contemporâneo

Hoje, o Natal é uma celebração em múltiplas camadas: um sagrado feriado religioso para bilhões de cristãos, um feriado secular de reunião familiar para muitos outros, e um grande evento comercial e midiático global. Sua capacidade de absorver, ressignificar e criar tradições – do presépio ao shopper lotado, do hino sacro ao Jingle Bells – é a chave para sua resiliência e presença mundial.




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