Itália investiga 'turistas de guerra' que pagavam para atirar em civis durante Cerco de Sarajevo
Ministério Público de Milão apura participação de cidadãos italianos em "safáris humanos" onde civis, incluindo crianças, eram alvos de tiros por diversão durante Guerra da Bósnia.
Foto: AP/John Gaps III O Ministério Público de Milão, na Itália, abriu uma investigação para apurar a participação de cidadãos italianos em "safáris humanos" durante o Cerco de Sarajevo, na Guerra da Bósnia (1992-1995). Segundo denúncia, empresários e pessoas ricas pagavam entre €80 mil e €100 mil (equivalente a R$ 490-610 mil atuais) para atirar em civis bosníacos, incluindo crianças, como forma de turismo macabro.
De acordo com o jornal italiano "La Repubblica", os "turistas de guerra" partiam às sextas-feiras da cidade de Trieste, a 600 km de Sarajevo, e eram armados com fuzis pelas milícias sérvio-bósnias. Posicionados nas colinas ao redor da capital sitiada, tinham permissão para atirar em alvos humanos na cidade.
Esquema cruel
O repórter e escritor Ezio Gavazzeni, que investigou o caso, relatou ao jornal: "Estamos falando de pessoas ricas, com reputação, empresários, que durante o cerco de Sarajevo pagavam para poder matar civis indefesos. Eles saíam de Trieste para a caçada humana. E depois voltavam e continuavam suas vidas normais".
As vítimas eram principalmente civis que se arriscavam nas ruas em busca de alimentos, medicamentos e outros mantimentos essenciais durante o cerco que durou 1.425 dias.
Contexto histórico
O Cerco de Sarajevo (1992-1996) foi um dos episódios mais sangrentos da Guerra da Bósnia. Cálculos da UNICEF indicam que 65 mil das 80 mil crianças da cidade (40% da população infantil) foram alvejadas diretamente por franco-atiradores.
Números oficiais registram 5.434 civis mortos durante o cerco, sendo aproximadamente 1.500 crianças. Outras 15 mil pessoas ficaram feridas nos combates.
Investigação e consequências
Os eventuais suspeitos podem ser indiciados por homicídio doloso agravado por crueldade e motivo torpe. O Ministério Público de Milão começará a convocar testemunhas para interrogatório, contando com uma lista de colaboradores que inclui um ex-oficial da inteligência bósnia.
O caso ganhou nova atenção após o lançamento do documentário esloveno "Sarajevo Safari" em 2023, que detalha os horrores desses "safáris humanos".



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